Há algum
tempo Maria Bethânia fez uso de um trabalho de Álvaro de Campos. Um texto longo
que foi reduzido a meia dúzia de frases selecionadas fora da sequência do texto
original. Como já ocorreu em outros trabalhos, neste caso, alterou totalmente o
original, fazendo-se crer que o autor diz aquilo que não diz. Para compreender
este fato, primeiro ouça o texto declamado por Bethânia e em seguida leia o texto
original completo de onde foram colhidas as frases.
Em negrito os trechos utilizados por
Bethânia em sua recriação da obra de Álvaro de Campos; [entre colchete negrito], palavras incluídas por ela ao texto ou
mudança na ordem das palavras; colocado entre chaves {1} número que indica a
sequência de leitura de Bethânia dos trechos da obra. Começa em {1} e finaliza
em {34}.
ULTIMATUM
{1} Mandado de despejo aos
mandarins [do mundo] da Europa! Fora.
{2} Fora tu , Anatole France , Epicuro
de farmacopeia homeopática, tenia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert
em loiça do século dezessete, falsificada!
Fora tu, Maurice Barrès, feminista da Acção,
Châteaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor
da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio !
Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das
partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão,{3} reles snob plebeu,
sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
{4} [E] Fora tu, mercadoria
Kipling, homem-prático do verso, imperialista
das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas,
tramp-steamer da baixa imortalidade !
Fora ! Fora !
Fora tu, George Bernard Shaw, vegeteriano do
paradoxo, {5} charlatão da sinceridade,
tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada,
Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish Melody calvinista com letra da Origem das
Espécies!
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso,
saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade !
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de
prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica
cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios !
Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem
indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
Fora ! Fora !
Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em
caracteres gregos, «D. Juan em Patmos» (solo de trombone)!
E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
E tu, Loti, sopa salgada, fria!
E finalmente tu,
Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos aí para
um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Aí ! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo
da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o
lume ?!
Quem és tu, {6}
[E] tu da juba socialista, David Lloyd George, bobo de barrete frígio
feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga,
caída no chão de manteiga para baixo?!
{7} E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda
Briand-Dato-Boselli da incompetência ante os factos, todos os estadistas
pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo,
cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu,
barris de lixo virados pra baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir
gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
{8} Ultimatum a eles todos [eles], e a todos os outros que sejam como eles todos!
Se não querem sair, fiquem e lavem-se !
Falência geral de tudo por causa de todos !
Falência geral de todos por causa de tudo !
Falência dos povos e dos destinos — falência total
!
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele
pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu organização britânica, com Kitchener no fundo do
mar desde o princípio da guerra!
(It's a long, long way to Tipperary, and a jolly
sight longer way to Berlin !)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de
cristianismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordeamento
imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente
de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à
parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios,
libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, «imperialimo» espanhol, salero em política, com
toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras
enterradas em Marrocos !
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da
baixa-Europa, alho da aÁorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo
inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto de Monarquia a
apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração
artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
{11} E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de .tudo isso!
{20} Fechem(-me) [tudo] isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os
guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas
lápides!
Agora a filosophia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta
ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da
organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos
taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-franceza dos Maurras de
razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos
intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios
para Deus !
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e
jogo de porta do lado de lá!
{21} Sufoco de ter (só)
[somente] isto à minha volta!
{22} Deixem-me respirar!
{23} Abram todas as janelas!
{24} Abram mais janelas do
que todas as janelas que há no mundo!
{25} Nenhuma ideia grande, ou noção completa ou
ambição imperial de imperador-nato!
Nenhuma ideia de uma estrutura, nenhum senso do
Edifício, nenhuma ânsia do Orgânico-Criado!
Nem um pequeno Pitt, nem um Goethe de cartão, nem
um Napoleão de Nürnberg!
Nem uma corrente literária que seja sequer a sombra
do romantismo ao meio-dia!
Nem um impulso militar que tenha sequer o vago
cheiro de um Austerlitz!
{26} Nem uma corrente
política que soe a uma ideia-grão, chocalhando-a, ó Caios Grachos de tamborilar na
vidraça!
Época vil dos secundários, dos aproximados, dos
lacaios com aspirações de lacaios a reis-lacaios!
Lacaios que não sabeis ter a Aspiração, burgueses
do Desejo, transviados do balcão instintivo! {14} Sim, todos vós que
representais [o mundo] a Europa,
todos vós que sois políticos em evidência em todo o mundo, que sois literatos
meneurs de correntes europeias, que sois qualquer coisa a qualquer coisa neste
maelström de chá-morno!
{15} Homens-altos de Lilliput-Europa, passai por baixo do meu Desprezo! Passai vós, ambiciosos do luxo
quotidiano, anseios de costureiras dos dois sexos, vós cujo tipo é o plebeu
Annunzio, aristocrata de tanga de ouro!
Passai vós, que sois autores de correntes
artísticas, verso da medalha da impotência de criar!
{16} Passai, frouxos que tendes a necessidade
de serdes os istas de qualquer ismo!
{17} Passai, radicais do
Pouco, incultos do
Avanço, que tendes a ignorância por coluna da audácia, que tendes a impotência
por esteio das neo-teorias!
Passai, gigantes de formigueiro, ébrios da vossa
personalidade de filhos de burguês, com a mania da grande-vida roubada na
dispensa paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos!
Passai, mistos; passai, débeis que só cantais a
debilidade; passai, ultra-débeis que cantais só a força, burgueses pasmados
ante o atleta de feira que quereis criar na vossa indecisão febril !
Passai, esterco epileptóide sem grandezas,
histerialixo dos espectáculos, senilidade social do conceito individual de
juventude!
Passai, bolor do Novo, mercadoria em mau estado
desde o cérebro de origem!
Passai à esquerda do meu Desdém virado à direita,
criadores de «sistemas filosóficos», Boutroux, Bergsons, Euckens, hospitais
para religiosos incuráveis, pragmatistas do jornalismo metafísico, lazzaroni da
construção meditada!
Passai e não volteis, burgueses da Europa-Total,
párias da ambição do parecer-grandes, provincianos de Paris!
Passai, decigramas da Ambição, grandes só numa
época que conta a grandeza por centimiligramas!
Passai, provisórios, quotidianos, artistas e
políticos estilo lightning-lunch, servos empoleirados da Hora, trintanários da
Ocasião!
Passai, «finas sensibilidades» pela falta de
espinha dorsal; passai, construtores de café e conferência, {9} monte de tijolos com pretensões a casa!
Passai, cerebrais dos arrabaldes, intensos de
esquina-de-rua!
{10} Inútil luxo, passai, vã grandeza ao
alcance de todos, megalomonia triunfante
do aldeão de Europa-aldeia!
{12} [ultimatum a] Vós que
confundis o humano com o popular, e o aristocrático com o fidalgo! Vós que confundis tudo, que, quando não
pensais nada, dizeis sempre outra coisa! Chocalhos, incompletos, maravalhas,
passai!
Passai, pretendentes a reis parciais, lords de
serradura, senhores feudais do Castelo de Papelão!
Passai, romantismo póstumo dos liberalões de toda a
parte, classicismo em álcool dos fetos de Racine, dinamismo dos Whitmans de
degrau de porta, dos pedintes da inspiração forçada, cabeças ocas que fazem
barulho porque vão bater com elas nas paredes!
Passai, cultores do hipnotismo em casa, dominadores
da vizinha do lado, caserneiros da Disciplina que não custa nem cria !
Passai, tradicionalistas auto-convencidos, {13} [vós] anarquistas deveras
sinceros, socialistas a invocar a
sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar! Rotineiros
da revolução, passai!
Passai eugenistas, organizadores de uma vida de
lata, prussianos da biologia aplicada, neo-mendelianos da incompreensão
sociológica!
Passai, vegeterianos, teetotalers, calvinistas dos
outros, kill-joys do imperialismo de sobejo!
Passai, amanuenses do «vivre sa vie» de botequim
extremamente de esquina, ibsenóides Bernstein-Bataille do homem forte de sala
de palco!
Tango de pretos, fosses tu ao menos minuete!
Passai, absolutamente, passai!
Vem tu finalmente ao meu Asco, roça-se tu
finalmente contra as solas do meu Desdém, grand finale dos parvos, conflagração-escárneo,
fogo em pequeno monte de estrume, síntese dinâmica do estatismo ingénito da
Época!
Roça-te tu e rojate, impotência a fazer barulho!
Roça-te, canhões declamando a incapacidade de mais
ambição que balas, de mais inteligência que bombas!
Que esta é a equação-lama da infâmia do
cosmopolitismo de tiros:
Proclamem bem alto que ninguém combate pela
liberdade ou pelo Direito!Todos combatem por medo dos outros ! Não tem mais
metros que estes milímetros a estatura das suas direcções!
Lixo guerreiro-palavroso! Esterco
Joffre-Hindenburguesco! Sentina europeia de Os Mesmos em excisão balofa!
{18} Quem acredita neles?
Quem acredita nos outros?
Façam a barba aos poilus!
Descasquetem o rebanho inteiro!
{19} Mandem [tudo isso - inverteu] (isso tudo) pra casa descascar batatas
simbólicas!
Lavem essa celha de mixórdia inconsciente!
Atrelem uma locomotiva a essa guerra!
Ponham uma coleira a isso e vão exibi-lo para a
Austrália!
Homens, nações, intuitos, está tudo nulo!
Falência de tudo por causa de todos! Falência de
todos por causa de tudo! De um modo completo, de um modo total, de um modo
integral:
MERDA!
A Europa {29}
[o mundo] tem sede de que se crie, tem fome de Futuro !
A Europa quer grandes Poetas, quer grandes
Estadistas, quer grandes Generais !
Quer o Político que construa conscientemente os
destinos inconscientes do seu povo !
Quer o Poeta que busque a Imortalidade
ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os
produtos farmacêuticos!
Quer o General que combata pelo Triunfo
Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
A Europa quer muito destes Políticos, muitos destes
Poetas, muitos destes Generais!
A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro
destes Homens Fortes — a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
A Europa {27}
[E o mundo] quer (a) Inteligência Nova que seja a Forma da sua Mateira
caótica!
Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as
pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
Quer {28}
a sensibilidade Nova que reúna de
dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
A Europa está farta de não existir ainda ! Está
farta de ser apenas o arrabalde de si-própria ! A Era das Máquinas procura,
tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de
O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
Dai Homeros À Era das Máquinas, ó Destinos
científicos! Dai Miltons à época das Coisas Eléctricas, ó Deuses interiores à
Matéria!
Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes
Completos, Harmónicos Subtis!
A Europa quer passar de designação geográfica a
pessoa civilizada !
{30} O que aí está a
apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
{31} O que aí está não pode
durar, porque não é nada!
{ 32} Eu, da Raça dos
Navegadores, afirmo que não pode durar!
{33} Eu, da Raça dos
Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado
fica o Novo Mundo agora a descobrir?
Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho
exacto do Possível!
Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita,
mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
Ergo-me ante, o sol que desce, e a sombra do meu
Desprezo anoitece em vós!
Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!
Vou indicar o caminho!
ATENÇÃO!
Proclamo, em primeiro lugar,
A Lei de Malthus da Sensibilidade
Os estímulos da sensibilidade aumentam em
progressão geométrica; a própria sensibilidade apenas em progressão aritmética.
Compreende-se a importância desta lei. A sensibilidade
— tomada aqui no mais amplo dos seus sentidos possíveis — é a fonte de toda a
criação civilizada. Mas essa criação só pode dar-se completamente quando essa
sensibilidade esteja adaptada ao meio em que funciona; na proporção da
adaptação da sensibilidade ao meio está a grandeza e a força da obra
resultante.
Ora a sensibilidade, embora varie um pouco pela
influência insistente do meio actual, é, nas suas linhas gerais, constante, e
determinada no mesmo indivíduo desde a sua nascença, função do temperamento que
a hereditariedade lhe infixou. A sensibilidade, portanto, progride por
gerações.
As criações da civilização, que constituem o «meio»
da sensibilidade, são a cultura, o progresso científico, a alteração nas
condições políticas (dando à expressão um sentido completo); ora estes ó e
sobretudo o progresso cultural e científico, uma vez começado — progridem não
por obra de gerações, mas pela interacção e sobreposição da obra de indivíduos,
e, embora lentamente a princípio, breve progridem ao ponto de tomarem
proporções em que, de geração a geração, centenas de alterações se dão nestes
novos estímulos da sensibilidade, ao passo que a sensibilidade deu; ao mesmo
tempo, só um avanço, que é o de uma geração, porque o pai não transmite ao
filho senão uma pequena parte das qualidades adquiridas.
Temos, pois, que a uma certa altura da civilização
há de haver uma desadaptação da sensibilidade ao meio, que consiste dos seus
estímulos — uma falência portanto. Dá-se isso na nossa época, cuja incapacidade
de criar grandes valores deriva dessa desadaptação.
A desadaptação não foi grande no primeiro período
da nossa civilização, da Renascença ao século XVIII, em que os estímulos da
sensibilidade eram sobretudo de ordem cultural, porque esses estímulos, por sua
própria natureza, eram de progresso lento, e atingiam a princípio apenas as
camadas superiores da sociedade.
Acentuou-se a desadaptação no segundo período, que
parte da Revolução para o século XIX, e em que os estímulos são já sobretudo
políticos, onde a progressão é facilmente maior e o alcance do estímulo muito
mais vasto. Cresceu a desadaptação vertiginosamente no período desde meados do
século XIX à nossa época, em que o estímulo, sendo as criações da ciência,
produz já uma rapidez de desenvolvimento que deixa atrás os progressos da
sensibilidade, e, nas aplicações práticas da ciência, atinge toda a sociedade.
Assim se chega à enorme desproporção entre o termo presente da progressão
geométrica dos estímulos da sensibilidade e o termo correspondente da progressão
aritmética da própria sensibilidade.
Daí a desadaptação, a incapacidade criativa da
nossa época. Temos, portanto, um dilema: ou morte da civilização, ou adaptação
artificial, visto que a natural, a instinctiva faliu.
Para que a civilização não morra, proclamo,
portanto em segundo lugar,
A Necessidade da Adaptação Artificial
O que é a adaptação artificial?
É um acto de cirurgia sociológica. É a
transformação violenta da sensibilidade de modo a tornar-se apta a acompanhar
pelo menos por algum tempo, a progressão dos seus estímulos.
A sensibilidade chegou a um estado mórbido, porque
se desadaptou. Não há que pensar em curá-la. Não há curas sociais. Há que
pensar em operá-la para que ela possa continuar a viver. Isto é, temos que
substituir a morbidez natural da desadaptação pela sanidade artificial feita
pela intervenção cirúrgica, embora envolva uma mutilação.
O que é que é preciso eliminar do psiquismo
contemporâneo?
Evidentemente que é aquilo que seja a aquisição
fixa mais recente no espírito — isto é, aquela aquisição geral do espírito
humano civilizado que seja anterior ao estabelecimento da nossa civilização,
mas recentemente anterior; e isto por três razões: (a) porque, por ser a mais
recente das fixações psíquicas, é a menos difícil de eliminar; (b) porque,
visto que cada civilização se forma por uma reacção contra a anterior, são os
princípios da anterior que são os mais antagónicos à actual e que mais impedem a
sua adaptação às condições especiais que durante esta apareçam; (c) porque,
sendo a aquisição fixa mais recente, a sua eliminação não ferirá tão fundo a
sensibilidade geral como o faria a eliminação, ou a pretensão de eliminar,
qualquer fundo depósito psíquico.
Qual é a ultima aquisição fixa do espírito humano
geral?
Deve ser composta de dogmas do cristianismo, porque
a Idade Média, vigência plena daquele sistema religioso, precede imediatamente
e duradouramente, a eclosão da nossa civilização, e os princípios cristãos são
contraditados pelos firmes ensinamentos da ciência moderna.
A adaptação artificial será portanto espontanente
feita desde que se faça uma eliminação das aquisições fixas do espírito humano,
que derivam da sua mergência no cristianismo.
Proclamo, por isso, em terceiro lugar,
A intervenção cirúrgica anti-cristã
Resolve-se ela, como é de ver, na eliminação dos
três preconceitos, dogmas, ou atitudes, que o cristianismo fez que se
infiltrassem na própria substância da psique humana.
Explicação concreta:
1. — Abolição do dogma da personalidade — isto é,
de que temos uma Personalidade «separada» das dos outros. É uma ficção
teológica. A personalidade de cada um de nós é composta (como o sabe a
psicologia moderna, sobretudo desde a maior atenção dada à sociologia) do
cruzamento social com as «personalidades» dos outros, da imersão em correntes e
direcções sociais e da fixação de vincos hereditários, oriundos, em grande
parte, de fenómenos de ordem colectiva. Isto é, no presente, no futuro, e no
passado, somos parte dos outros, e eles parte de nós. Para o auto-sentimento
cristão, o homem mais perfeito é o que com mais verdade possa dizer «eu sou
eu»; para a ciência, o homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer
«eu sou todos os outros».
Devemos pois operar a alma, de modo a abri-la à
consciência da sua interpenetração com as almas alheias obtendo assim uma
aproximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Síntese da Humanidade.
Resultados desta operacão:
(a) Em política: Abolição total do conceito de
democracia, conforme a Revolução Francesa, pelo qual dois homens correm mais
que um homem só, o que é falso, porque um homem que vale por dois é que corre
mais que um homem só! Um mais um não são mais do que um, enquanto um e um não
formam aquele Um a que se chama Dois. — Substituição, portanto, à Democracia,
da Ditadura do Completo, do Homem que seja, em si-próprio, o maior número de
Outros; que seja, portanto, A Maioria. Encontra-se assim o Grande Sentido da
Democracia, contrário em absoluto ao da actual, que, aliás, nunca existiu.
(b) Em arte: Abolição total do conceito de que cada
indivíduo tem o direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou
o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários. Não
confundir com «a expressão da Época», que é buscada pelos indivíduos que nem
sabem
sentir por si-próprios. O que é preciso é o artista
que sinta por um certo número de Outros, todos diferentes uns dos outros, uns
do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma
Síntese-Soma, e não uma Síntese-Subtracção dos outros de si, como a arte dos
actuais.
(c) Em filosofia: Abolição do conceito de verdade
absoluta. Criação da Super-Filosofia. O filósofo passará a ser o interpretador
de subjectividades entrecruzadas, sendo o maior filósofo o que maior número de
filosofias espontâneas alheias concentrar. Como tudo é subjectivo, cada opinião
é verdadeira para cada homem: a maior verdade será a soma-síntese-interior do
maior número destas opiniões verdadeiras que se contradizem umas às outras.
2. — Abolição do preconceito da individualidade. —
É outra ficção teológica — a de que a alma de cada um é una e indivisível. A
ciência ensina, ao contrário, que cada um de nós é um agrupamento de psiquismos
subsidiários, uma síntese malfeita de almas celulares. Para o auto-sentimento
cristão, o homem mais perfeito é o mais coerente consigo próprio; para o homem
de ciência, o mais perfeito é o mais incoerente consigo próprio,
Resultados:
(a) Em política: A abolição de toda a convicção que
dure mais que um estado de espírito, o desaparecimento total de toda a fixidez
de opiniões e de modos-de-ver; desaparecimento portanto de todas as
instituições que se apoiem no facto de qualquer «opinião pública» poder durar
mais de meia-hora. A solução de um problema num dado momento histórico será
feita pela coordenação ditatorial (vide parágrafo anterior) dos impulsos do
momento dos componentes humanos desse problema, que é uma coisa puramente
subjectiva, é claro. Abolição total do passado e do futuro como elementos com
que se conte, ou em que se pense, nas soluções políticas. Quebra inteira de
todas as continuidades.
(b) Em arte: Abolição do dogma da individualidade
artística. O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em
mais géneros com mais contradições e dissemelhanças. Nenhum artista deverá ter
só uma personalidade. Deverá ter várias, organizando cada uma por reunião
concretizada de estados de alma semelhantes, dissipando assim a ficção
grosseira de que é uno e indivisível.
(c) Em filosofia: Abolição total da Verdade como
conceito filosófico, mesmo relativo ou subjectivo. Redução da filosofia à arte
de ter teorias interessantes sobre o «Universo». O maior filósofo aquele
artista do pensamento, ou antes da «arte abstracta» (nome futuro da filosofia)
que mais teorias coordenadas, não relacionadas entre si, tiver sobre a
«Existência».
3. — Abolição do dogma do objectivismo pessoal. — A
objectividade é uma média grosseira entre as subjectividades parciais. Se uma
sociedade for composta, por ex., de cinco homens, a, b, c, d, e e, a «verdade»
ou «objectividade» para essa sociedade será representada por
No futuro cada indivíduo deve tender para realizar
em si esta média. Tendência, portanto de cada indivíduo, ou, pelo menos, de
cada indivíduo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias
(das quais a própria faz parte), para assim se aproximar o mais possível
daquela Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a série numérica das
verdades parciais.
Resultado:
(a) Em política: O domínio apenas do indivíduo ou
dos indivíduos que sejam os mais hábeis Realizadores de Médias, desaparecendo
por completo o conceito de que a qualquer indivíduo é lícito ter opiniões sobre
política (como sobre qualquer outra coisa), pois que só pode ter opiniões o que
for Média.
(b) Em arte: Abolição do conceito de Expressão,
sustituído pelo de Entre-Expressão. Só o que tiver a consciência plena de estar
exprimindo as opiniões de pessoa nenhuma (o que for Média portanto) pode ter
alcance.
(c) Em filosofia: Substituição do conceito de
Filosofia pelo de Ciência, visto a Ciência ser a Média concreta entre as
opiniões filosóficas, verificando-se ser média pelo seu «carácter objectivo»,
isto é, pela sua adaptação ao «universo exterior» que é a Média das
subjectividades. Desaparecimento portanto da Filosofia em proveito da Ciência.
Resultados finais, sintéticos:
(a) Em política: Monarquia Científica,
antitradicionalista e anti-hereditária, absolutamente espontânea pelo
aparecimento sempre imprevisto do Rei-Média. Relegação do Povo ao seu papel
cientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento.
(b) Em arte: Substituição da expressão de uma época
por trinta ou quarenta poetas, pela sua expressão por (por ex.), dois poetas
cada um com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quais seja uma Média
entre correntes sociais do momento.
(c) Em filosofia: Integração da filosofia na arte e
na ciência; desaparecimento, portanto, da filosofia como metafísica-ciência.
Desaparecimento de todas as formas do sentimento religioso (desde o cristianismo
ao humanitarismo revolucionário) por não representarem uma Média.
Mas qual o Método, o feitio da operação colectiva
que há de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Método
operatório inicial?
O Método sabe-o só a geração por quem grito por
quem o cio da Europa se roça contra as paredes ! Se eu soubesse o Método, seria
eu-próprio toda essa geração!
Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde ele vai ter.
Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da
Humanidade dos Engenheiros!
Faço mais: garanto absolutamente a vinda da
Humanidade dos Engenheiros!
Proclamo, para um futuro próximo, a criação
científica dos Super-homens!
Proclamo a vinda de uma Humanidade matemática e
perfeita!
Proclamo a sua Vinda em altos gritos!
Proclamo a sua Obra em altos gritos!
Proclamo‑A, sem mais nada, em altos gritos!
E proclamo também: Primeiro:
O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais
completo!
E proclamo também: Segundo:
O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais
complexo!
E proclamo também: Terceiro:
O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais
harmónico!
{34} Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do
Tejo, de costas para a Europa, braços
erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstractamente o Infinito.
1917
Portugal
Futurista, nº 1.
Lisboa: 1917. (Ed. facsimil. Lisboa: Contexto, 1981)


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